Nerve Runner: Impulso Expresso
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Uma homenagem ao Manic Miner (Bug-Byte, 1983) e ao Jet Set Willy (Software Projects, 1984), com as suas escadas, cordas, tapetes rolantes e chãos que se desfazem, e ao Skool Daze (Microsphere, 1984), cujas personagens andam por todo o lado e falam em balões. O jogador é um impulso nervoso, e as tarefas fazem-se pela ordem que quiser, como no Skool Daze. Fora do caminho principal há oito medalhas Nobel para encontrar e dois enigmas que valem pontos extra. Quem acabar depressa ganha um bónus de rapidez. As células que falam, cada uma com o seu trabalho e a sua personalidade, são uma homenagem ao Era Uma Vez… a Vida (Il était une fois… la vie, 1987). No Difícil o ATP vai-se gastando, como o ar no Manic Miner. O jogo fica guardado no browser, para poder continuar noutro dia.
A ciência
- Reflexo: os receptores de calor da ponta do dedo, com canais TRPV1, disparam com calor que dói. Na medula espinal, o corno dorsal passa o sinal por um interneurónio aos neurónios motores, e a mão afasta-se antes de o cérebro sentir alguma coisa.
- Susto e calma: a cadeia simpática acelera o coração com noradrenalina, e as glândulas supra-renais juntam adrenalina no sangue. O nervo vago volta a abrandá-lo com acetilcolina, que actua no pacemaker do coração, o nó sinoauricular.
- Acenar: o córtex motor, com as suas enormes células de Betz, manda a ordem pelo feixe corticoespinhal abaixo até aos neurónios motores do corno ventral. Na junção neuromuscular, a terminação nervosa faz acetilcolina a partir da colina (os ovos são uma boa fonte), e a acetilcolinesterase desfá-la outra vez numa fracção de milissegundo.
- Lembrar: no hipocampo, o glutamato abre os receptores AMPA. O receptor NMDA precisa de glutamato e de uma membrana despolarizada ao mesmo tempo, o que empurra para fora o ião magnésio que o tapa. O cálcio entra e a sinapse fica mais forte: é a potenciação de longa duração.
- Pelo caminho: a mielina dos oligodendrócitos e das células de Schwann deixa o impulso saltar de um nódulo de Ranvier para o seguinte; os astrócitos arrumam o glutamato; o intestino tem o seu próprio sistema nervoso entérico. As escadas são microtúbulos e os tapetes rolantes o transporte axonal. Os perigos: a tetrodotoxina do peixe-balão, que bloqueia os canais de sódio, e o GABA, o principal mensageiro de «parar» do cérebro. Os bocados sem mielina desfazem-se, como na esclerose múltipla.
- Como andar por aí: um canal de sódio numa porta abre e depois fecha o poro por um momento (inactivação) antes de poder abrir outra vez. Essa pausa, o período refractário, é a razão por que um impulso nunca volta para trás. Os nódulos de Ranvier atiram-no para a frente, como na condução saltatória (do latim saltare, saltar). Os espinhos de rosa na ponta do dedo são aquilo para que servem os nociceptores.
- Energia: a bomba de sódio e potássio mantém a membrana pronta a disparar, e funciona com ATP das mitocôndrias. No coração, onde cerca de um terço de cada célula muscular são mitocôndrias, a cadeia de transporte de electrões corre pelo chão: o complexo I (ou o complexo II), o complexo III e o complexo IV passam os electrões ao oxigénio e bombeiam protões, e os protões voltam pela ATP sintase. Neste site: a NADH desidrogenase do tipo II, que faz sozinha o papel do complexo I em muitas bactérias; a citocromo c oxidase caa3, um complexo IV; e a cabeça F1 da ATP sintase.
- Mais personagens: o caracol-cone caça peixes com um arpão venenoso, e as suas conotoxinas bloqueiam os receptores de acetilcolina da junção neuromuscular; uma toxina de outro caracol-cone deu origem a um analgésico, a ziconotida. Os operadores da sala de controlo mostram o homúnculo motor: as mãos e os lábios ficam com a maior fatia do córtex motor. Cada vesícula sináptica leva uma encomenda de cerca de 10 000 moléculas de acetilcolina.
- Missões extra: a medula supra-renal é um gânglio simpático que se tornou glândula: um sinal pelos nervos esplâncnicos liberta acetilcolina sobre as suas células cromafins, que despejam adrenalina no sangue. O hipotálamo é o termóstato do corpo (termorregulação): quando o Alex tem calor a mais, os nervos simpáticos, que aqui usam acetilcolina, o que é raro, ligam as glândulas sudoríparas, e o suor arrefece a pele ao evaporar-se.
- Piadas com ciência lá dentro, no espírito do episódio da série sobre os neurónios: o centro da tosse no tronco cerebral faz uma votação, porque um neurónio soma mesmo os sinais que recebe e dispara quando passam de um limiar (somação); os impulsos correm e chocam uns com os outros no feixe corticoespinhal; e no corno dorsal as encefalinas, os opióides do próprio corpo, fazem de polícia de trânsito e abrandam a dor.
- Os extras: as medalhas são para Golgi e Cajal (1906), Sherrington e Adrian (1932), Loewi e Dale (1936), Erlanger e Gasser (1944), Hodgkin, Huxley e Eccles (1963), Katz, von Euler e Axelrod (1970), Kandel, Carlsson e Greengard (2000), e Julius e Patapoutian (2021). «Depressa ou devagar?» é sobre a velocidade de condução nervosa: as fibras grossas e com mielina são as mais rápidas. «O sonho de Loewi» é a sua experiência de 1921 com corações de rã, a primeira prova de que os nervos falam por meio de substâncias químicas. Leve as medalhas ao tálamo, que passa ao córtex quase todos os sentidos (o olfacto vai sobretudo por um atalho). Aqui está vestido de Salão Azul da Câmara Municipal de Estocolmo, onde o banquete Nobel se faz todos os anos a 10 de Dezembro; os prémios são entregues mais cedo nesse dia na Sala de Concertos de Estocolmo. O Salão Azul é de tijolo vermelho: o arquitecto, Ragnar Östberg, queria rebocá-lo de azul, mas gostou demasiado do tijolo.
Onde o jogo faz um bocadinho de batota
- Um impulso nervoso não vai do cérebro ao intestino e volta. Cada um corre ao longo de um só neurónio, num só sentido, e desaparece em poucos milissegundos; o neurónio seguinte começa um novo.
- Ninguém anda a carregar neurotransmissores de um lado para o outro. São feitos e guardados na terminação nervosa que os liberta, e a colina chega lá pelo sangue, não ao colo de ninguém.
- O coração não passa de 72 para 130 e volta com uma só entrega. Também muda um bocadinho a cada respiração.
- Um reflexo a sério leva cerca de uma décima de segundo, não uma corrida por quatro ecrãs. Senão, o Alex ficava bem queimado.
- Um canal de sódio abre porque a voltagem através da membrana muda, não por um relógio, e fica aberto cerca de um milissegundo, não um segundo e meio. A tampa é uma pequena volta da própria proteína; a imagem da «bola presa por uma corrente» serve melhor para alguns canais de potássio.
- Os nódulos de Ranvier não atiram nada. O impulso só parece saltar: a corrente corre depressa por baixo da mielina e só tem de ser refeita em cada nódulo.
- Um botânico diria que as rosas têm acúleos, não espinhos. A ponta do dedo não quer saber.
- O tálamo vê passar quase todos os convidados, mas não dá banquetes.
- O ATP não acaba num minuto: o corpo faz por dia cerca do seu próprio peso em ATP, reciclando as mesmas moléculas vezes sem conta.
- Os caracóis-cone vivem em mares quentes, não no braço de ninguém. Se algum dia encontrar um, olhe mas não toque.
- Não há sala de controlo no córtex motor, e lá ninguém usa auscultadores. Mas cada parte do corpo tem mesmo o seu bocadinho.
- Ninguém sobe até à pele numa gota de suor, embora a viagem fosse curta: a glândula fica só a poucos milímetros de profundidade.
- Os neurónios não votam, e não há reuniões de comissão no tronco cerebral. Mas um neurónio soma mesmo os sinais que lhe dizem para disparar e para estar quieto, e só dispara quando o total chega. Ganha a maioria, mais ou menos.
O código dos jogos está sob a licença MIT, e os textos e notas de ciência sob CC BY 4.0. Pode usá-los à vontade no ensino: indique «BioGames de David Aragão» e um link para esta página. Detalhes da licença (em inglês). A música, melodias ao estilo do ZX Spectrum escritas em código com a ajuda de IA, também está sob CC BY 4.0.